Fracionamento em radioterapia: como funciona

O fracionamento em radioterapia divide a dose total de radiação em múltiplas sessões menores porque tecidos saudáveis conseguem se reparar entre as aplicações, enquanto células tumorais, em geral, não têm essa mesma capacidade de recuperação. Esse princípio biológico, descrito formalmente desde os anos 1970 com o modelo linear-quadrático, ainda orienta a maioria dos protocolos modernos de radioterapia ao redor do mundo.

  • O fracionamento protege os tecidos saudáveis ao dar tempo para que eles se recuperem entre as sessões.
  • Existem três grandes modalidades: fracionamento convencional, hipofracionamento e dose única (radiocirurgia).
  • O número de sessões depende do tipo de tumor, da localização, do objetivo do tratamento e da condição clínica do paciente.
  • Dois pacientes com o mesmo diagnóstico podem receber esquemas de fracionamento completamente distintos.
  • Tecnologias como IGRT (radioterapia guiada por imagem) aumentam a precisão e viabilizam fracionamentos mais agressivos com segurança.

Saber que o tratamento foi planejado especificamente para o seu caso, e não copiado de um protocolo genérico, faz diferença real na qualidade de vida durante e após a radioterapia. Entender a lógica por trás do número de sessões pode aliviar parte da ansiedade que acompanha o diagnóstico oncológico, e esse entendimento começa aqui.

O que acontece dentro do tumor a cada fração de dose

A radiação ionizante age quebrando as fitas do DNA das células. Células tumorais, por crescerem de forma acelerada e muitas vezes com mecanismos de reparo defeituosos, acumulam danos letais com mais facilidade. As células saudáveis ao redor, embora também sejam atingidas, possuem vias de reparo mais eficientes, especialmente se o intervalo entre as sessões for de pelo menos 6 a 8 horas.

Esse intervalo não é arbitrário. Estudos radiobiológicos demonstram que a maioria dos tecidos de resposta tardia, como pulmão, medula espinhal e intestino, completa o reparo subletal em até 6 horas após a irradiação. Por isso, o fracionamento convencional adota uma sessão por dia, cinco dias por semana, respeitando esse ciclo biológico.

Existe ainda o fenômeno da reoxigenação: tumores sólidos costumam ter regiões hipóxicas (com baixo oxigênio) que são menos sensíveis à radiação. Ao fracionar o tratamento, as sessões seguintes alcançam células que foram reoxigenadas, tornando o efeito total mais abrangente do que uma dose única conseguiria.

Fracionamento convencional, hipofracionamento e dose única: quando cada um se aplica

Os três esquemas existem porque tumores diferentes respondem de formas diferentes à dose por fração, e não porque um é simplesmente melhor que outro.

Fracionamento convencional

No fracionamento convencional, a dose por sessão fica entre 1,8 Gy e 2,0 Gy (gray, a unidade de dose absorvida). Um tratamento típico de câncer de cabeça e pescoço, por exemplo, pode chegar a 70 Gy distribuídos em 35 sessões ao longo de sete semanas. Esse esquema é o mais estudado historicamente e ainda é o padrão para tumores com tecidos adjacentes de alta sensibilidade à radiação.

Hipofracionamento

O hipofracionamento usa doses por sessão maiores, geralmente acima de 2,5 Gy, reduzindo o número total de sessões. No câncer de mama, ensaios clínicos como o canadense Ontario Clinical Oncology Group mostraram que 42,5 Gy em 16 frações produzem controle local equivalente ao esquema convencional de 50 Gy em 25 frações, com toxicidade semelhante. No Reino Unido, o protocolo FAST-Forward reduziu o tratamento adjuvante de mama para apenas 5 sessões em uma semana, com resultados publicados no The Lancet em 2020 que confirmaram não-inferioridade em controle tumoral após 5 anos.

O hipofracionamento também é amplamente usado no câncer de próstata, pois a próstata tem uma relação alfa/beta baixa, o que significa que ela responde proporcionalmente melhor a doses por fração maiores.

Dose única e radiocirurgia

A radiocirurgia, como a realizada com sistemas de precisão robótica, entrega uma dose alta em sessão única ou em poucas frações (geralmente 3 a 5), com margens milimétricas. É o padrão para metástases cerebrais pequenas, neurinomas do acústico e lesões vertebrais isoladas. A condição indispensável para esse nível de dose por fração é a precisão geométrica: qualquer desvio de posicionamento acima de 1 mm pode resultar em subdosagem do tumor ou sobredosagem de estruturas críticas.

EsquemaDose por fraçãoNúmero típico de sessõesExemplos de aplicação
Convencional1,8 a 2,0 Gy25 a 40Cabeça e pescoço, pulmão, colo do útero
Hipofracionamento moderado2,5 a 4,0 Gy10 a 20Mama, próstata, pulmão periférico
Hipofracionamento extremo (SBRT)6,0 a 20,0 Gy3 a 5Metástases hepáticas, pulmonares, vertebrais
Dose única (radiocirurgia)12 a 24 Gy1Metástases cerebrais, neurinoma do acústico

Como o radio-oncologista define o número de sessões

A decisão envolve pelo menos quatro variáveis simultâneas, e nenhuma delas age de forma isolada.

Tipo e biologia do tumor

A relação alfa/beta do tumor define a sensibilidade à dose por fração. Tumores com alfa/beta alto, como carcinomas epidermoides, respondem bem ao fracionamento convencional. Tumores com alfa/beta baixo, como próstata e mama, se beneficiam de doses por fração maiores, o que é uma das razões pelas quais o hipofracionamento ganhou espaço nesses sítios nas últimas duas décadas.

Localização e estruturas adjacentes

Um tumor próximo à medula espinhal exige frações menores e mais cautela no planejamento, porque a medula tem tolerância de dose estrita (geralmente até 45 Gy no esquema convencional para toda a extensão). Já um tumor em região com estruturas menos radiosensíveis ao redor permite esquemas mais acelerados. A localização determina, literalmente, o quanto o radioterapeuta pode apertar o fracionamento.

Objetivo: curativo ou paliativo

Tratamentos paliativos priorizam alívio de sintomas com o menor número possível de sessões, respeitando a qualidade de vida do paciente. Um esquema paliativo para dor óssea, por exemplo, pode ser resolvido em dose única de 8 Gy ou em 5 sessões de 4 Gy, com eficácia analgésica comparável ao esquema de 10 sessões, conforme dados consolidados pela Sociedade Brasileira de Radioterapia. Tratamentos curativos, por outro lado, trabalham com doses totais mais altas e protocolos mais longos.

Condição clínica do paciente

Pacientes com comorbidades graves, baixa reserva funcional ou impossibilidade de comparecer diariamente ao tratamento são candidatos a esquemas hipofracionados, mesmo quando o esquema convencional seria a primeira escolha biológica. A adesão ao tratamento é parte do resultado: um protocolo de 35 sessões incompleto é pior do que um protocolo de 15 sessões concluído.

Por que dois pacientes com o mesmo diagnóstico recebem tratamentos diferentes

O diagnóstico anatomopatológico é apenas o ponto de partida do planejamento, não o destino. Um adenocarcinoma de pulmão em estágio inicial em um paciente de 65 anos sem comorbidades pode receber SBRT em 3 a 5 sessões com intenção curativa. O mesmo diagnóstico em um paciente com fibrose pulmonar severa exige frações menores para proteger o parênquima pulmonar restante, mesmo que isso estenda o tratamento.

Além disso, o volume do tumor importa. Dois tumores de próstata com o mesmo estadiamento clínico podem ter volumes-alvo muito diferentes na ressonância multiparamétrica, o que altera diretamente o planejamento dosimétrico. Um tumor que envolve a base da bexiga, por exemplo, impõe restrições ao hipofracionamento extremo que um tumor confinado ao parênquima prostático não teria.

Há também o histórico de tratamentos anteriores. Um paciente que já realizou radioterapia em determinada região tem restrições de retratamento que o radio-oncologista precisa considerar com cuidado, consultando as doses cumulativas registradas nos planos anteriores.

IGRT e a precisão que viabiliza o fracionamento moderno

A radioterapia guiada por imagem (IGRT, do inglês Image-Guided Radiation Therapy) integra sistemas de imagem de alta resolução diretamente no acelerador linear ou no sistema robótico, permitindo verificar e ajustar a posição do paciente e do tumor imediatamente antes ou durante cada sessão.

Sem IGRT, margens de segurança maiores precisam ser adicionadas ao volume-alvo para compensar incertezas de posicionamento, o que inevitavelmente aumenta a dose nos tecidos saudáveis adjacentes. Com IGRT, essas margens podem ser reduzidas a 3 mm ou menos em alguns protocolos, viabilizando doses por fração que seriam impraticáveis com posicionamento manual.

É essa precisão que torna o hipofracionamento extremo e a radiocirurgia seguros na prática clínica diária. A tecnologia não elimina o julgamento clínico, mas remove uma das principais fontes de incerteza do tratamento. Na São Sebastião Radioterapia, o parque tecnológico com recursos de precisão robótica e IGRT permite que a equipe de radio-oncologistas planeje frações com margens milimétricas, adaptando o esquema às particularidades anatômicas e clínicas de cada paciente atendido na clínica em Florianópolis.

O planejamento individualizado na prática

O processo começa com uma consulta detalhada, seguida de exames de imagem para definir o volume-alvo e as estruturas de risco. A equipe de física médica calcula a distribuição de dose em três dimensões, testando diferentes combinações de ângulos e doses por fração. O radio-oncologista valida o plano, verifica as curvas de isodose e aprova o esquema apenas quando os critérios de cobertura do tumor e de respeito aos limites dos órgãos saudáveis são atendidos simultaneamente.

Esse processo, chamado de planejamento radioterápico, pode levar de alguns dias a mais de uma semana em casos complexos, e envolve reuniões multidisciplinares com oncologistas clínicos, cirurgiões e outros especialistas quando necessário. O número de sessões que o paciente verá na sua prescrição é o resultado de todas essas etapas combinadas, não de uma escolha administrativa ou de conveniência logística.

Perguntas frequentes sobre fracionamento em radioterapia

O fracionamento em radioterapia pode ser alterado durante o tratamento?

Sim. O radio-oncologista pode ajustar o esquema se houver toxicidade inesperada, mudança no volume tumoral avaliada por imagem de controle ou alteração na condição clínica do paciente. Essa revisão é parte do acompanhamento ativo e não indica falha no planejamento inicial.

Menos sessões significa tratamento menos eficaz?

Não necessariamente. Esquemas hipofracionados e de dose única foram validados em ensaios clínicos prospectivos para vários tipos de tumor, com controle local equivalente ou superior ao fracionamento convencional. O número de sessões reflete a biologia do tumor e a tecnologia disponível, não a intensidade do tratamento.

Por que a radioterapia normalmente não acontece nos fins de semana?

O intervalo de 48 a 72 horas no final de semana permite que os tecidos saudáveis completem o reparo celular iniciado durante a semana. Em protocolos acelerados específicos, como o tratamento de câncer de cabeça e pescoço de alto risco, pode-se incluir sessões aos sábados para compensar esse intervalo e manter a eficácia biológica do tratamento.

O que é a dose total em gray e como ela se relaciona com o número de sessões?

O gray (Gy) mede a energia de radiação absorvida por quilo de tecido. A dose total prescrita divide-se pelo número de frações para definir a dose por sessão. Por exemplo, 60 Gy em 30 sessões equivalem a 2,0 Gy por fração, enquanto 45 Gy em 15 sessões equivalem a 3,0 Gy por fração. O efeito biológico real de cada esquema é calculado pelo modelo linear-quadrático, que pondera a dose por fração além do valor absoluto.

Como a IGRT melhora a segurança do fracionamento em doses altas?

A IGRT verifica a posição exata do tumor antes de cada sessão por meio de imagens de cone-beam CT ou raios-X de alta resolução integrados ao equipamento. Esse controle reduz as margens de segurança necessárias ao redor do volume-alvo, protegendo tecidos saudáveis adjacentes e permitindo doses por fração mais altas com menor risco de toxicidade grave.